Saturday, 12 April 2014

Matrioshka

A  primeira vez que te vi, 
Eras nada mais do que uma boneca. 
Não posso dizer que tenha sido amor à primeira vista, 
Mas algo nos teus traços cativou-me. 
 
Aproximei-me e desmontei-te. 
Por baixo havia uma complexa rede 
De bonecas dentro de bonecas 
Todas iguais mas, em cliché, todas diferentes. 
 
Eras mais doce, mais humilde, 
Mais interessante, mais perfeita. 
A cada boneca que ia abrindo, 
Um novo caminho abria-se também. 
 
Formas de se rir, de sonhar, 
De chorar e, caprichosamente, de comer. 
Havia uma pessoa dentro de uma pessoa, 
Criando um remoinho de emoções. 
 
Na última boneca, no entanto, 
Encontrei amor. 
Encontrei o mais simples dos simples 
Que se encondia por trás de tanta complexidade.  
 
Na última boneca, aquela tão pequena e discreta, 
Encontrei um mundo, só teu, guardado. 

Na última boneca, aquela tão bem desenhada e perfeita, 
Encontrei alegria. 
 
Na última boneca, aquela que leva trabalho a encontrar, 
Encontrei-te.

Wednesday, 2 April 2014

Metro

A pestilência aromática dos imensos perfumes 
Que ronda o metro, calmio e deambulante, 
Pelas primeiras horas da matina, 
É suficiente para me acalmar. 
 
O ritmo frenético e o silêncio ensurdecedor, 
De quem faz rumo ao seu trabalho, 
Diverte-me, com o seu pulsar carnal e rotineiro, 
Que aparece e desaparece a cada paragem. 
 
Os olhares mórbidos e cansados, 
Afundados num horizonte inexistente, 
Levados pela mecanicidade de um dia a seguir a outro, 
E a outro... E a outro... E a outro... 
 
O burburinho surge em pequenos grupos, 
Aqueles que, pela conveniência dos horários, são criados. 
Geram o único som desta orquestra, 
Acompanhando o incessante apitar das portas. 
 
Sou parte deste pulsar, desta passividade. 
Sou parte desta criação inequivocamente transparente. 
Sou eu, parte de um zumbir humano, 
Parte de um vai e vem contínuo.