Monday, 27 January 2014

Um ciclo

Ao fundo do túnel há uma luz 
E caminho na sua direcção. 
Corro, salto, grito e, finalmente, 
Chego ao fundo do túnel. 
Perco a consciência 
E, quando acordo, não consigo ver. 
Sinto alguém a agarrar-me. 
Ouço vozes, muitas vozes, 
E objectos de metal a tilintar. 
O cheiro a desinfectante enche-me as narinas. 

(Quebra)
 
Tento escapar, ao gatinhar, 
Mas há sempre alguém pronto a agarrar-me 
E acabo por ficar numa cela de madeira, 
Com paredes a toda à volta, 
Mas eu consigo vê-los e eles vêem-me também. 
Grito, choro e tento falar, 
Mas nem uma única palavra sai da minha boca 
E, com uma leve música, 
As minhas pálpebras pesam como ferro. 
 
(Quebra) 
  
As minhas pernas finalmente agem. 
Levanto-me e dirijo-me a um polícia 
Mas já não sei o meu nome antigo. 
Só me conheço pelo nome "Carlos" que me deram.   
O polícia olha para mim, ri-se e manda-me embora. 
Eu desespero e choro. Tenho medo. 
Um líquido quente escorre pelas minhas pernas 
E umas crianças, à minha frente, riem-se de mim. 
"Fizeste xixi, fizeste xixi". 
Fico petrificado com a minha audiência. 
Não me consigo mexer e tento chamar por ajuda.  
Ninguém me ouve. 
 
(Quebra)
 
Estou sentado numa secretária, 
Com um estojo colorido à minha frente 
E um lápis roído na ponta. 
Ao meu lado está um rapaz que nunca vi na vida 
Mas ele ri-se para mim e oferece-me uma bolacha. 
Aceito-a e sorrio de volta. 

(Quebra) 
 
Vejo um velho deitado numa cama, 
A tossir e a gemer. 
Cinco pessoas estão à sua volta 
E, ao meu lado, está uma mulher a dar-me a mão. 
"Não te preocupes, Carlos, a mamã está aqui", 
Diz-me ela, como se fosse suposto eu conhecê-la. 
 
(Quebra)
 
Estou a discutir com quem disse ser a minha mãe. 
Ela chora, chora e chora, 
E eu saio pela porta fora, batendo-a com força, 
Deixando os seus queixumes para trás. 
Por mim passa um cão de pêlo castanho, 
Com uma pequena mancha preta na cabeça. 
Faço-lhe uma festa e caminho pela rua abaixo.
 
(Quebra) 
 
Pego no telemóvel para telefonar à minha mãe 
Mas ninguém atende do outro lado. 
Guardo o telemóvel no bolso e sento-me na poltrona. 
Olho para uma foto que repousa na mesa de café 
E vejo aquele a quem chamam "Carlos" e a sua mãe.   
A lareira, acesa, aquece-me a cara do lado direito, 
Do mesmo lado de onde cai uma única lágrima.   
Levanto o copo que tenho na mão esquerda 
E bebo mais um pouco. 
No silêncio, adormeço.  
 
(Quebra) 
 
Estou no hospital. 
A minha mulher e filha estão ao meu lado a dar-me a mão.  
Não me me lembro de nada.   
Ouço as palavras "mota", "chuva" e "vermelho" 
Mas o resto soa a uma mistela sem sentido.   
Ouço o barulho         das máquinas         ao meu lado.
                         (bip)                       (bip)                      (bip)
Um médico empoleira-se em mim e espeta-me o corpo.  
Não sinto, mas vejo.
(bip)
Sai sangue, muito sangue.
(bip)  
A minha mulher e filha são expulsas da sala
(bip bip) 
E os médicos mexem-se à minha volta.
(bip bip bip) 
Não consigo respirar
(bip) 
E o mundo fecha-se à minha volta.
(bip)
Começo a ver uma luz ao fundo do túnel. 
(biiiip)